Oh! tristeza me desculpe,
estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando,
desde muito longe
Lá do fim do mar…” |
|
Vamos viajar!!!
Os lugares por onde passaremos será desvendado aos poucos, mesmo porque é um
roteiro aberto, tem hora só de começar. Na primavera de 2010.
Algumas viagens serão sempre planos, não sairão jamais dos papéis, porque é
justamente como sonhos impossíveis, que nos levam para outros caminhos
desconhecidos.
Dessa vez a viagem nasceu assim, de repente, na emoção.
Decidimos primeiro onde, que começou em ir para qualquer lugar que não
chovesse muito na primavera, daí apareceram os limites, já que iremos tão
longe passaremos pelo deserto, depois passaremos naquela ilha, da minha
parte quero molhar os pés no Pacífico (porque não garanto coragem de tomar
banho em águas frias), assim todos lugares que gostaríamos de ir foram
cuidadosamente incluídos nas rotas.
E o caminho se estendeu por uns 14 mil km. Até ai tudo bem.
Ficou faltando decidir quanto tempo vai durar, mais contas, datas, quer
saber é preciso muito tempo, melhor adiantar a partida e sair amanhã mesmo e
esse amanhã foi dia 20 de outubro de 2010.
A gente que mora flutuando, quando cisma de sair de férias vai para as
estradas: de terra, de asfalto, de areia, de rípio e de um sem fim de
kilometros a procura de paisagens que nosso olhos não estão acostumados.
Destino: a terra dos yaganes, desde o Salar chileno até Ushuaia, na Terra do
Fogo.
Escolhemos a primavera porque ouvimos relatos de quem viajou por essas
regiões, e disseram que essa época do ano é adequada para viajar, porque
chove menos, a temperatura é agradável, menos turistas, fora da alta e cara
temporada do verão.
Numa viagem de barco, escolhemos como destino lugares cujo acesso é somente
pelo mar: ilhas, penínsulas, localidades cujas facilidades de transportes
são quase inexistentes, onde porta de entrada é o caminho das águas.
Para as terras altas dos Andes, para a terra dos yaganes nossa escolha foi
ir de carro, fizemos um roteiro de mais quatorze mil kilometros, como temos
tempo, não temos pressa.
Iremos para a terra onde o Magalhães perdeu as botas.
Entramos na Argentina por Puerto Iguazu, uma pequena cidade vermelha, rojo
terra.
Por aqui a nível de turismo só fomos ao marco das 3 Fronteiras. Nada de
Cataratas,
já havíamos visitado esse ponto turístico, ainda que há décadas, seguimos
então para nosso destino primeiro, Atacama, atravessaríamos todo o norte da
Argentina, com algumas paradas de repouso e outros de passeios e visitas
turísticas.
As Rutas da Argentina estão em bom estado até aqui em Posadas, com centenas
de kilometros de reflorestamento de pinheiros, as margens amarelas da
estrada por causa das margaridas amarillas.
Passamos por duas praças de pedágio, de valor ínfimo de $1,70 e $2,40 pesos
ar
(cotação: 0,46 reais); é um contraste para a quantidade e os altos valores
dos pedágios nas rodovias Castelo Branco e Transbrasiliana, no Brasil. Sendo
que os mais caros foram entre Londrina e Cascavel, justamente o trecho em
pior estado de conservação.
Já no primeiro posto policial de controle, fomos parados: documentos, seguro
carta verde, perguntas: o que tem na bagagem, de onde vem, para onde vai e
ai as curiosidades sobre o motor do troller e afins.
Para quem ficou curioso com a tercera trocha é a terceira faixa da pista.
Seguimos para Posadas, a primeira parada da longa viagem. Dia do Censo, foi
declarado feriado nacional! No dia 27 de outubro, tudo estará fechado,
ficamos sabendo disso na nossa chegada em Posadas, a noite no
estacionamento, nada pode abrir ou funcionar sob pena de multa. Para a
contagem ‘das gentes’, há um movimento nacional para realizar esse censo num
único dia. Acabamos de ser recenseados no City Hotel em Posadas, Missiones –
Ar. Como já fomos recenseados no Brasil recentemente e agora de novo na
Argentina, no cálculo geral da contagem da população da América do Sul tem
dois a mais.
Uma última notícia: morre na manhã do dia 27 de outubro o ex-presidente
Néstor Kirchner, realmente escolhemos o dia ‘certo’ para chegar na
Argentina. Nesse mesmo dia seguiríamos viagem para Presidente Roque
Saens Peña, + ou – 600km daqui, mas as informações que tivemos era que nem
postos de gasolina iriam abrir.
Procuramos mais informações na internet e no quiosque do censo na praça 9 de
julho em frente ao hotel, o que conseguimos saber é que haverá uma
mobilização nacional para recensear todo o país em um único dia. Por
prudência decidimos não partir, e com isso fomos recenseados também na
Argentina.
Corrigindo a contagem final da população sulamericana, mais dois, menos um,
saldo final: população mundial mais um.
Desde que chegamos na Argentina a base da nossa alimentação é a boa e
suculenta carne bovina, vindas diretamente da Carniceria (açougue). Como
temos viajado por cidades pequenas, restaurantes é coisa rara e cara, pero
el Comedor tem para todo lado, inclusive nos hotéis o café da manhã é
servido no Comedor. Já viramos fãs das maravilhosas empanadas argentinas,
com recheios de queijo, presunto, carne bovina e frango,
mas já nos disserem que as melhores estão no Chile, iremos lá para
experimentar e comprovar. Nas estradas mesmo com poucos postos de serviços
(de gasolina) encontra-se Comedores, Paradores e Parrillas em qualquer
lugar. As gasoseas (refrigerentes) são servidas frescas ( ou melhor não
geladas), se gostar gelada tem que pedir gelo e sempre em garrafas de mais
de um litro.
Um capítulo a parte são os irresistíveis Alfajores, redondos bolinhos
recheados de Dulce de Leche e cobertos com chocolate, os da marca Havana é
dos melhores, mas a cada cidade tem os seus tradicionais Aflajores. O jeito
foi passar longe das balanças até o fim da viagem!!!
Nossa rotina de viagem era sair cedo das cidades e percorrer uma estrada em
bom estado, são horas agradáveis que gastamos para percorrer dos 500 e
alguma coisa km que separam Posadas de Presidencia Roque Saens Peña, a
chegada nas cidades é sempre a tarde, na hora da siesta local. A primeira
impressão é que entramos numa cidade fantasma,
não se vê habitantes, nem carros e nem movimento, está tudo fechado.
Procuramos algum hotel, escolhido previamente e visitado via sites, depois
descansamos por umas horas. Quando o sol abaixa e o calor ameniza saímos
para andar e conhecer um pouco do lugar,
dos hábitos locais, mas é um impacto quando ultrapassamos a porta do hotel,
parece que a cidade está fervilhando, tem gente pra todo lado, carros,
motoqueiros sem capacetes, bikes na contra-mão, num transito maluco, sem
semáforos, sem buzina, sem placas de sinalização, sem sentido, uma confusão
ordenada… assim é Roque Saens Peña.
No longo trecho de mais de 600km de Presidencia Roque Saens Peña à Salta
pegamos uma estrada em bom estado, poucos pedágios. Por muitos kilometros
vimos plantações de trigo e girassóis, dourado e amarelo, emoldurando nosso
caminho.
Já percorridos 250km o ar condicionado do carro deu um problema,colocava ar
quente, digo muito quente, para dentro do carro. Tivemos que fazer os
restantes 380km de janelas abertas, o que não seria um problema, digno de
nota se o vento forte do lado de fora não fosse muito mais quente e seco, a
umidade devia estar em 20%, era ainda 11h da manhã e a temperatura interna
no carro era de 39,5°C e subindo.
Nas estradas argentinas vimos muitos postos de controle policiais, fiscais,
sanitários, federais, estaduais, municipais, o mais estranho foi um no km
309 da RN16, num lugar completamente deserto e com muitos pássaros no meio
da estrada tomando sol, o policial estava com pedras e um estilingue
(atiradeira para uns) na mão, nem preciso dizer o que vimos pelo retrovisor.
À uma da tarde o termômetro estava fervendo, em 48,8°C, à beira da estrada
os pequenos lugarejos pareciam cenas de filmes dos desertos mexicanos, tudo
muito seco e abandonado. E com o calor que estava fazendo não tinha uma alma
pelas ruas. Faltavam ainda 200km para nosso destino, Salta. Quando avistamos
a Cordilheira dos Andes, 'tai' o primeiro destino da nossa viagem.Saímos das
planícies do Chaco e chegamos aos pés da Cordilheira dos Andes, já na
primeira cidade Salta subimos para a altitude de 1200m do nível do mar.
Nem o calor nos desanimou, do outro lado dessas montanhas,o Pacífico. Depois
de mais de 7h de viagem, num calor de 48,8°C sem ar condicionado, chegamos
em Salta, ao norte da Argentina. Tínhamos alguns endereços de hotéis para
ver em qual ficar, mas nenhuma reserva porque vimos nos guias e na internet
que a cidade é bem fornida de hotéis. Surpresa, mais uma nessa viagem, Salta
é uma cidade de peregrinação e todo fim de semana, todos e absolutamente
todos os hotéis
estavam ocupados, por sorte achamos por indicação, uma oficina elétrica
para ar condicionado de carro, mas gentileza ainda, a oficina lotada,
compreensível com o calor que estava fazendo, mas o eletricista nos atendeu
e depois de duas horas de espera
estávamos com o ar ligado e quase sentindo frio. Depois de girar toda a
cidade em vão procurando um lugar pra dormir, fomos para uma cidade
próxima, San Lorenzo e somente 8km e um Rio “ de pedras” depois achamos uma
agradável e aconchegante Pousada.
No dia 31/10 rumo será Jujuy, Tilcara, Purmamarca e Paso Jama, e por fim
Chile.
Continuando pela Ruta 9, fomos subindo os Andes, contornando a cidade de
Jujuy até Tilcara, passamos por vários Rios largos e secos ou com
pouquíssima água, a paisagem também muda completamente, as árvores e o verde
desaparecem de uma curva para a outra, e vemos somente montanhas alguns
cactus e formações geológicas coloridas, que vão do vermelho, amarelo,
verde, branco ao cinza de todos os tons, marrons e alaranjados. As poucas
casas a beira da estrada, são rústicas e pobres, com telhados de metal.
Chegamos num dia de sol e vento, temperatura 21°C, estamos no Trópico de
Capricórnio, mas tão longe de casa, na altitude de 2461m do nível do mar, na
longitude 065°W, na pequena cidade de Tilcara, Jujuy, Argentina.
As viagens são o deleite para os sentidos. Os odores, o paladar, o tato das
diferenças,
nos sons locais e de maneira arrebatadora, os contrates que se apresentam as
paisagens,
os detalhes de cada novo ângulo. Região de Quebrada de Humahuaca, nos Andes
argentinos.Uma cidade de cores vivas, vento e frio seco. De poeira, árvores
frutíferas nas ruas e povo simpático. Um artesanato diferenciado e muito
bonito. A pequena Tilcara encantadora.
Saímos de Tilcara na manhã de 02/11, não muito cedo, pois faríamos um trecho
de pouco mais de 400km até Atacama no Chile. A 45km de Tilcara vimos o Cerro
das Siete Cores, que anunciava nossa chegada à Purmamarca, um lugarejo de
origem indígena, muito pequeno e aconchegante, que vive de basicamente de
turismo e artesanato colorido, encravado no meio de morros coloridos e altas
montanhas.
De lá era só subida, pegamos a Cuesta Lipan, a ruta 9 é uma estrada em bom
estado de conservação, que vai contornando os morros, como serpentes, até o
ponto mais alto da cordilheira do lado argentino antes do Paso de Jama. Na
placa marcava 4170m de altitude, mas no nosso GPS foi de 4217m do
nível do mar.
Ao iniciar a descida para os altiplanos argentinos nos deparamos com a
Salinas Grandes, uma área enorme e branca, vemos sal para todos os lados.
quase não cruzamos com veículos, somente alguns caminhões, pouquíssimas
casas, nenhuma gente, também para morar nessa altitude é preciso coragem e
desprendimento, porque tem pouca água, é frio e seco, não tem energia
elétrica, chegamos a ver uns painéis solares nas poucas casas que
avistamos. Mas tinham muitas , incontáveis Lhamas e Vicunhas andando livres
por todo esse nosso caminho. Quase na fronteira tem a minúscula e feia
Susquez, cidade de apoio e mineração. Mesmo com a burocracia, dar saída no
país foi tranquilo, e quase rápido.
Mas para chegar ao Chile subimos ainda mais ao nosso recorde de 4827m do
nível do mar. Mais salares nos altiplanos chilenos, numa paisagem
exuberante, depois foi morro abaixo até San Pedro de Atacama, mais
alfândega, carimbos, vistorias. A cidade é pequena, simpática e muito
turística.
Entrando no Chile o que impressiona é a mudança radical de paisagem, da
vegetação, os salares e o deserto se espalhando até onde a vista alcança. As
cores do deserto deixaram marcas na nossa retina. Depois do primeiro impacto
da beleza estranha, o deserto quase sufoca, não pelo calor, frio, vento,
sol, mas pela secura, a poeira, a terceira margem da vida no deserto.
O deserto, o salar, as lagunas, a areia, de cemitério indígena, na beira do
caminho, sem cruzes ou nomes, somente pedras empilhadas, qualquer uma dessas
paisagens que mudam de cor conforme a luz do sol, ao amanhecer e
entardecer, cujos nossos olhos não estavam acostumados, nos deixou sua
marca na retina e na memória, nada foi ou será igual a esse espetáculo
de exuberância da natureza, desse lugar seco e frio, de sol todos os dias e
muito vento.
Fim do Atacama, o ponto mais ao norte do Chile que iríamos visitar. Agora o
rumo será sempre sul até a última cidade da América do Sul. Depois de mais
de três dias de deserto, e já querendo ver algo verde diante dos olhos,
partimos para Antofagasta, 300km de mais montanhas, areias, sempre o
deserto, até chegar ao nível do mar.
De repente aparecem nuvens densas e escuras presas na cordilheira, como se
tivesse uma barreira ou uma proibição para que elas não avançassem para cima
do deserto.
Numa descida gradual e contínua, vimos na última curva o mar, sob as nuvens
cinzas que escondiam a linha do horizonte. E lá estava ele, o Pacífico, o
outro oceano, do outro lado do nosso continente, ele é verde, de ondas
fortes, numa encosta de pedras e penhascos.
Ruta 5, a TransAmericana, acompanha o desenho da costa chilena, com poucos
desvios dentro dos altos Andes, vemos o Pacífico mudar de cor de verde musgo
ao azul petróleo,
areias claras e milhares de pedras negras e blancas, e muitas, muitas áreas
não habitadas. Ele é verde, com ondas grandes e bravo.Antofagasta é de
frente para todos os entardeceres. Vê-lo, o Pacífico, na descida da
cordilheira e depois de um deserto gigantesco, mesmo estando o céu
encoberto, foi uma boa emoção!
Seguimos para o Pacífico, do outro lado do nosso continente, o oceano maior,
ele que é violento, marcante, verde, intenso. Com uma costa que se debruça
sobre suas águas tão bruscamente, numa união de pedras e areias negras e
ondas brancas.
Foram três regiões de deserto com sutis mudanças na vegetação, até que
chegamos no centro do país, com cidades espremidas entre a cordilheira
altíssima e nevada, de uma beleza incansável de se olhar e o Pacífico verde
inconstante.
O deserto nos acompanhou por três regiões (estados), Antofagasta, Atacama e
Coquimba, a mudanças da vegetação são sutis, já no fim da região de Atacama
começam a aparecer uma vegetação rasteira e verde, os cactus que vimos
somente na Argentina, volta a figurar na paisagem. Avistamos da estrada,
umas enseadas protegidas do vento de SW, mas com tantas pedras que nenhum
porto nos deu a sensação de segurança, tinha sempre pequenos barcos de
pescadores, alias é preciso muita coragem para pescar nesse mar.
Aqui o deserto se cobre de vegetação ‘tipo de cerrado’ mas ainda nos
acompanha pelo litoral, até que chegamos a La Serena, Coquimba, onde
começamos a vemos árvores, parques, vales de plantações de frutas e
verduras. A cidade é pequena com 160 mil habitantes, de temperatura
agradável e boa comida chilena, peixes e vinhos deliciosos!
Em La Serena, pés nas águas do Pacífico! Não rolou de entrar no mar, o tempo
esta muito feio. Acabou o deserto, as montanhas de pedras, já tem algum
verde e debruçam sobre o mar forte. Me gusta tanto el Chile,que ja escolhi
um terreno, à venda, que fica entre Los Hornos e La Serena de frente para o
Pacífico!!
A hospitalidade dos chilenos é um capítulo a parte, somos bem recebidos
sempre, inclusive os carabineros, na estrada quando vêem o carro do Brasil,
nos param para conversar sobre nossa viagem e temos que dizer todo nosso
roteiro e ouvir cada sugestão deles de lugares que temos que conhecer, ah
sobre documentos, nada não estão interessados, porque sabem se você chegou
até aqui é porque está tudo certo.
A Ruta 5 nos levou a beira mar até quase a capital, já à alguns poucos
kilometros de Santiago avistamos a Cordilheira com seus picos nevados,
brancos. O Pacífico, por causa do vento constante estava agitado e seu verde
era quase branco na arrebentação, as montanhas agora eram cobertas de
vegetação e embora tivesse um belo sol fazia frio, bastante frio.
Agora foi a vez de turismo clássico, Museus, monumentos, Plaza de Armas,
andar andar e andar, provar as comidas típicas e dezenas de fotos. Bom, isso
é o que se espera de um típico turista, mas nós fomos à lavandeira,
correios, casa de cambio, andamos a esmo pelas ruas do centro e do bairro da
Bellas Artes e sim fomos ao Museu Casa Pablo Neruda, que posso confessar que
foi idéia minha, aliás amanhã tem mais, vamos visitar Viña del Mar,
Valparaíso, Isla Negra onde estão as outras duas Casas Museus de Neruda.
A Cordilheira, com neves eternas, abraça Santiago à leste. Alta, branca,
com reentrâncias profundas, o relevo dos Andes não se desvenda mas, se
mostra em pequenas nuances
de acordo com a luz que o sol concede. A cidade na primavera se veste de
verde claro nas árvores, de azul no céu e todas as cores nas flores. Onde
encontrei o país, o mar, os Andes e as palavras de Neruda. Tão encantador
como cada verso seu.
Com a cordilheira de picos nevados às costas a estrada nos leva rumo a
Oeste, demoramos para chegar, nenhuma indicações em placas, ou no guia,
precisamos pedir informações e aumentar o caminho em alguns kilometros. O
vento continua frio, o céu todo encoberto, chegando em Isla Negra, o mar
verde nos recebe violento e bravio, com ondas implacáveis, aqui o Pacífico
tem o cheiro da sua força, a audácia da sua grandeza e poder.
Nas estradas estreitas e cheias de curvas, a neblina é densa, tão pesada
que escorria entre os pinheiros e se amontoava no chão por todo o nosso
caminho.
O sol frágil não aquece nada, e toda essa névoa esconde o mar, ele o
Pacífico.
De Santiago, rumo ao sul, continuando na Ruta 5, estrada com muitas
plantações de chá, frutas, vinhedos, com asfalto perfeito, muitos e caros
pedágios, mas vale a pena, porque a velocidade da estrada é 120km/h e depois
de 400 km da capital, ela fica completamente vazia. Mais adiante, ao sul mas
não muito, vimos o primeiro vulcão ativo das nossas vidas, outra
experiência extrema, vulcão ativo com fumaça e neve. A neve foi um brinde,
veio sem aviso ou encomenda, lúdica, fria, seca e branca.
Por volta de 18h chegamos a Pucon, um lugar agradável, pequeno, simpático e
muito charmoso que fica às margens do Lago Villarrica e aos pés do ativo
Vulcão Villarrica.
Caminhamos pela cidade ontem, com céu muito encoberto quase não víamos as
montanhas. Tem um lago, um vulcão e uma cidade todos com o mesmo nome!
O céu encoberto escondeu o vulcão. Agora estamos longe do mar, mas da janela
do quarto vemos o lago e o entardecer. Mas o charme todo fica para Pucon,
mais um lugar para se encantar e ficar alguns dias para descansar, assim,
digamos, quase de férias.
Na manhã do dia seguinte da nossa chegada em Pucon, foi uma surpresa ao
olhar em volta, e dar de cara com um vulcão soltando fumaça pelas ventas e
todo branco, nevado.
Não tinha nem que pensar fomos direto para o parque que está o Vulcão,
subimos um pouco mais de mil metros e lá estávamos nós na base do vulcão,
onde por causa da neve estava bloqueada a estrada. Um dia de sol
forte, quase sem vento, visibilidade ótima. E lá fomos nós andar na neve,
tocá-la e ficar maravilhados de encontrar neve, na primavera num dia de sol
e de bermudas.
De tudo branco neve. Daquela intensa fumaça também branca. Guardo nas mãos o
delicado toque da neve fria e seca. E do sol que aquecia minha pele. Das
bolas de neve voando pelos ares. De outro sonho encontrado!
Depois de três dias se divertindo em Pucon seguimos viagem rumo ao sul.
A sorte e a escolha da época certa para fazer essa viagem nos tem dado dias
de sol maravilhosos e nada de chuva, partimos de Pucon para Puerto Varas.
Antes desviamos nosso caminho para conhecer Valdivia, uma cidade portuária,
muito bonita e náutica, com 140 mil habitantes, divida entre dois rios
navegáveis e uma baia protegida por ilhas na foz do Rio Valdivia com o
Pacífico. Fomos até a praia ver o mar, avistamos dois veleiros velejando,
tinha bastante vento acredito que mais de 15 nós. Seguindo pela beira mar
rumo ao inteiror da baia, subindo o rio até o Iate Club de Valdívia, vimos
outro veleiro de vento em popa. O lugar é lindo e agradável, paramos para
almoçar com essa paisagem emoldurada pela janela, o cardápio foi frutos do
mar, Curanto Mariscales, acompanhado de vinho (só pra mim) e a levíssima
e deliciosa água de Cutipay.
Valdívia era minha esperança, de estar novamente no Pacífico, e de molhar
ao menos meus pés, nas suas verde e frias ondas. Num dia de sol e céu azul,
fomos ver o mar de Valdívia, tudo perfeito para realizar o sonho. Mas que
nada, o vento castigava a pele, o frio doía nos ossos, e eu esmoreci, sem
coragem desisti, na desesperança de tocá-lo ao menos uma vez disse não para
aquele oceano fortaleza. Parti mas não sem olhar para trás muitas vezes,
seduzida per seu magnetismo. Talvez a gente se encontre mais ao sul. Talvez
a ilha de nome encantador, Chiloé, me conduza às águas verde do meu
Pacífico.
O centro sul se abre com sol e bom tempo, logo seguiremos ao nosso próximo
destino Isla de Chiloé. De tarde aportamos em Puerto Varas, devidamente
instalados saímos para andar pela cidade à margem do Lago Llanquihue e ver
o anoitecer sobre a cordilheira e o vulcão Osorno nevados, como estamos um
pouco abaixo da latitude 41° W o dia é claro até depois das 21h.
No dia seguinte fomos conhecer Puerto Montt e nos informar melhor sobre os
ferryboat para a Carretera Austral, “no vagas hasta 30/11”, foi o que
ouvimos na bilheteria do porto.
Visitar Chiloé estava nos planos, quase de passagem, para pegar o Ferry em
Quellon no sul da ilha, até Chaiten ou Puerto Cisnes. Sem a opção de ir de
navio para a Carretera decidimos conhecer um pouco de Chiloé o que acabou se
relevando uma grande e agradável surpresa. Em Pargua tomamos o Ferryboat
para a ilha Chiloé, a travessia do canal Chacao é feito num instante,
chega-se numa rampa que tem sempre um ferryboat esperando, sem fila
embarcamos, pagamos a bordo, passageiros não pagam, somente veículos. A
Isla Chiloé é um sonho, uma beleza selvagem e livre, ainda com pouca
interferência do homem, é encantadora, lugarejos pequenos, muito bem
cuidados, casa estilo alemão, muito verde e flores, a ilha é um colorido só.
O mar estava calmo, ainda verde e transparente, passamos por vários riachos
e rios. Paramos em Ancud para almoçar e conhecer um pouco a cidade, comemos
mais mariscos e salmão, uma delícia! O chilote, (quem nasce em Chiloé) não
foge a regra do resto do país, são tão agradáveis e gentis que praticamente
mimam os turistas.
Depois mais uns 40 minutos de estrada de asfalto e ripio, chegamos numa
praia fantástica, muito longa e vazia, Playa Piedra Run, descemos até a
areia de carro, finalmente molhei os pés no Pacífico, foi indescritível mas
devo confessar que estava gelada.
Como mágica, numa praia deserta, num dia de sol, mergulhei minha alma no
mar, um mar transparente, em todos os tons de verde, quase sem ondas e frio
quase gelado.
Já mudei de endereço de novo. Procure agora por Chiloé, a ilha que me
encantava pelo nome, por suas lendas e mitologia, me conquistou por sua
beleza única.
Com a mudança de rumo, seguimos por Orsono e atravessamos para a Argentina
no Paso Cardenal Antonio Samoré e de lá o nosso rumo será sul até onde dê
para voltar ao Chile e seguir pela Carretera Austral.
Não estava nos nossos planos passar por Bariloche, primeiro porque é muito
turística e segundo porque não estava na nossa rota. Mas desde que não
arrumamos vagas nos Ferryboats para a Carretera Austral, em Puerto Montt,
mudamos o rumo e seguimos para o Paso mais perto do nosso destino. Já no
Paso Cardenal Antonio Samoré vimos neve no acostamento, o sol alto não
chegava aquecer o ambiente, na descida da Cordilheira dos Andes avistamos o
enorme lago Nahuel Huapi a beira de Nova Angostura, Bariloche e Llaollao.
Embora aqui consideram a primavera baixa temporada, os hotéis do centro
estão lotados, tem turistas pra todo lado, mas tem tantos brazukas que na
informação turística, supermercado, os garçons, frentistas, vendedores todos
falam ou se esforçam em falar em português, fazem de tudo para agradar o
turista.
É uma região cercada de montanhas nevadas, muito verde, parques e lagos com
ilhas, tudo muito bonito, tivemos que nos render, Bariloche é realmente
muito bela, vale percorrer seus parques e lagos. Daqui se vai para o Chile,
até Puerto Varas, numa maratona de barcos e ônibus que dura um dia inteiro
e de paisagens incríveis!
Vimos dois clubes náuticos, em várias baias achamos um veleirinho boiando na
poita, de frente às casas. O vento aparece com frequência e força, o povo do
kitesurf se diverte fazendo acrobacias diante da praça principal da cidade,
mas eu garanto a água é fria, mais fria que o Pacífico em Chiloé.
A vantagem de fazer uma longa viagem num círculo, é que não passamos nunca
na mesma estrada duas vezes, estamos sempre indo, cada detalhe da paisagem
deve ser aproveitado, pois não se repetirá.
A água quando é azul clara, transparente são águas quentes. Cor que não vejo
a muito tempo. Já o azul escuro são frescas, coisa de 23°C a 26°C. No
Pacífico, as águas são verde escuro e frias, muito frias. Na mágica Chiloé o
mar é verde claro, transparente e gelado. Mas as águas dos lagos alimentados
do degelo é muito gelada. No verão ouvi de nativos: a água continua muito
fria, mas é verão tem que se entrar na água se não se pode viajar. As águas
pretas são frias e até suportáveis desde que tenha sol. Na Cordilheira
dos Andes as águas dos riachos tem cor de frio, verde muito claro, quase
leitoso. E quando finalmente chega a ser água branca é o segundo antes de
congelar. Ai sim cair na água é morte na certa!
Quando viajamos, procuramos nos informar, comprar mapas e guias dos lugares
que queremos ir. Poucas vezes nos decepcionamos com essas escolhas, mas
quando num guia ou relatos não fazem nenhuma referência sobre uma cidade,
acredite talvez nem valha a pena passar por lá. Esse é o caso da cidade de
Perito Moreno, Santra Cruz, aqui a única coisa que funciona bem aqui são as
informações turísticas que funciona das 7h as 24h a semana toda, e as duas
lavanderias que nem olhei o preço, porque o trauma aqui foi grande, o único
hotel, muito mais ou menos, com vagas, é caro, os outros todos estão
lotados, tá bom que é feriado na segunda-feira. E o jantar.. bom, comemos um
comidinha boa mas mui simples e caríssima, imagine que Perito Moreno para o
turista é muito mais cara que Bariloche, a menina dos olhos dos turistas
argentinos, chilenos e brasileños.
Quando tem uma cidade que nenhum guia fala nela, talvez seja melhor nem
passar por lá!!
O triste é confirmar isso ao vivo e ao frio. Essa eu já tirei do meu mapa
também.
O céu amanheceu completamente azul, o vento insistia, castigando as árvores.
Mas o sol aquecia aos poucos a alma, porque o corpo estava embalado em
dezenas de camadas de lã, uma gigante cebola humana. Nos guias, nas agências
de turismo e sites diziam que o Glaciar é muito bonito, mas que sol por aqui
é raro. A estrada para ir até lá é de curvas que revelam detalhes da
Cordilheira branca nevada, do Lago Argentino verde piscina, dos rios brancos
de corredeiras, da vegetação rasteira das planícies e do verde escuro quase
negro dos pinheiros das montanhas do parque. E depois no ápice, o gelo azul,
azul celeste, tão claro que é quase branco.
À saída de El Calafate, mais uma surpresa de percurso, tínhamos decido
seguir para Puerto Natales pela estrada de asfalto e entrar no Chile pelo
Paso da Dorotéia. Planos são assim, contam sempre com fatores externos para
serem mudados e não cumpridos, chegando na entrada da cidade de Rio Turbio
tinham vários carros bloqueando a estrada, tambores com pneus pegando fogo e
fazendo uma fumaça preta e fedorenta. Paramos perto, depois de ver um carro
da polícia, e lá fomos nós perguntar se podíamos passar:
Não! Foi a resposta, e nos deram a sugestão de passar pelo Paso de Laurita /
Casas Viejas a estrada é um pouco mais longa e tem 10 km de ripio (terra e
pedras), na nossa frente um ônibus cheio de estrangeiros e mochilas enormes.
Como no final, nós latinos sul-americanos não somos gringos, e estamos em
veículo próprio, nos atenderam na frente,
numa espécie de fila virtual. Papéis preenchidos, documentos e muitos
carimbos ,
um pouco de bate-papo com os policiais sobre a viagem, sobre o Rio de
Janeiro, violência, cinema brasileiro, frio e futebol, chegamos em Puerto
Natales. Uma pequena maratona de ver alguns hotéis, pechinchar no preço,
depois fomos almoçar a delícia da cozinha chilena,
Salmão e Centtolas gigantes, saborosas, frescas, deliciosas e inesquecíveis.
Regadas do melhor vinho chileno!!!
Na manhã seguinte seria a vez deTorre del Paine, declarado pela Unesco como
Reserva Mundial de la Biosfera.
A latitude é pouco abaixo dos 51° S, a longitude quase 73°W, muito perto de
Puerto Natales – Chile e vizinho de El Calafate – Argentina.
O Parque Nacional Torres del Paine tem lagos e lagunas de cores mais
estranhas, florestas, animais, montanhas e rochas nevadas permanentemente,
Glaciar Grey, gelos, estradas e senderos. Lemos e ouvimos dizer maravilhas
de Torres del Paine, de paisagens que nos davam impressão de estar em outro
planeta, mas se posso dizer a verdade, realmente aqui a natureza
impressiona, seria lugar comum dizer que é um espetáculo, Paine - que quer
dizer azul na língua mapuche, como em outros lugares nesse país, a natureza
é de tirar o fôlego. Porque afinal essa mesma natureza é agressiva, fria e
difícil para os humanos viverem, e no entanto e por isso mesmo ela
surpreende, choca e deslumbra.
Um lugar que é assim de cores estranhas. Verdes de todos os tons,ventos
fortes. Águas foscas que lembram aquarelas. Sombras e contornos que
deslumbram. Depois enormes torres de pedras que rasgam o céu à força, com
intimidade e indiferença.
Depois de mais de onze mil kilometros de estrada, já nos quase, quase 55° S
ouvi ontem na estrada: – Assim que chegarmos em Ushuaia vou te convencer a
voltar para Angra!
A Baia de Ushusia era um espelho, o vento diminuiu tanto que estava quase
quente.
Um entardecer que durou horas, até tarde da noite. De madrugada vi pela
janela um céu ainda claro no horizonte à oeste.
Yahga é um canal que separa as Ilhas de Hoste e Navarino à sudeste de
Ushuaia, atualmente o canal leva o nome de Angostura Murray. O missionário
Tomás Bridges que esteve na Tierra del Fuego por volta de 1830, queria dar
um nome ao povo indígena fueguino que encontrou aqui na região do Ushuaia
(que na língua nativa significa “baia que entra para oeste”),
perguntou-lhes de onde vinham, onde moravam e a resposta foi de Yahga, o
canal no meio das ilhas onde habitavam os indígenas, assim deu-lhes o nome
de yahgan (em inglês) ou yagán(em castelhano). “… yaganes eran los que
vivían em el Yahga”. Depois os yaganes virou nome de rua, a que ficava entre
o final do povoado primitivo e o Presídio, onde hoje é a cidade de Ushuaia.
E nome de veleiro que nos inspirou a vinda até o extremo sul da América do
Sul.
Hoje 2 km depois de Puerto Williams- Isla Navarino - Chile, do outro lado
do canal de Beagle fica a histórica villa Ukika onde ainda se encontram
algumas casas tipicas dos yaganes, lá vive, dizem, a última descendente do
povo yaganes.
Na manhã seguinte foi a despedida fria de Ushuaia, fortes ventos, frio de
4°C e um céu ameaçadoramente cinza chumbo, depois de poucos kilometros de
estradas, o céu desabou em lágrimas de flocos de neve, as árvores e o
acostamento estavam brancos, cobertos da neve fria, na triste despedida do
fim do mundo.
A volta também é longa e desconhecida. Mas já tem o gosto de estar sempre
mais perto de casa e a nostalgia de que esta acabando aos poucos a viagem.
Tivemos depois da descidas das montanha uma chuva fina e inconstante por
companhia. Pouco mais de 110km de ripio e outros 470km de asfalto. Quatro
aduanas e o dobro em carimbos.
Uma barca, fila de ônibus, carros e caminhões. Embarcamos. O estreito de
Magalhães estava de contrariado, por causa do vento de 100km/h, contra
naturalmente, porque quando o vento é muito nunca é pra a favor.E as ondas
lavavam a proa a barca. Despedidas são sempre marcantes.
Quanto tempo demora para uma viagem chegar ao fim?
Mais de dezessete mil kilometros de estradas, e de dois países vizinhos que
compartilham montanhas, águas, neves, e tão diferentes e tão bonitos. Depois
de algumas horas em qualquer cidade já me sinto em casa, a cidade nova é um
desafio e uma descoberta. Raramente tenho a vontade de voltar pra casa antes
do término da viagem, as vezes tenho saudades das pessoas que gosto, coisa
que a internet ajuda a aplacar.
Depois de muito tempo viajando a vida é a mala e as tralhas, que se carrega
pra cima e pra baixo, perdê-las é um transtorno. Mas não é o fim da viagem.
O fim mesmo é quando não nos sentimos mais à vontade pelos caminhos dessa
viagem!
Fomos até a terra do fogo . Banhei meus pés no Pacífico. Fomos até o
fim do mundo e ponto final |
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